Desabafo

Desabafo

Eu sento dentro do silêncio
e a tristeza chega sem pedir licença.
Não é drama —
é um tom grave, inevitável,
como um piano tocado com cuidado
no início da manhã.

As notas caem lentas,
uma a uma,
cinza-azul,
ecoando no peito.
Cada som tem cor,
cada pausa tem peso.
O ar é frio
e cheira a coisa antiga
que ainda dói.

Vejo sombras longas
se movendo nas paredes internas.
Não são inimigas.
São lembranças respirando.
O piano insiste,
agora mais fundo,
mais próximo do osso.

Meu corpo vibra.
O som vira água.
Primeiro riacho.
Depois corrente.
Depois tudo corre.

O azul escurece,
vira verde úmido,
vira espuma branca.
Já não controlo o ritmo.
A música me atravessa
e eu deixo.

Sou cachoeira.
Sou queda.
Sou força sem freio.

O choro não pede desculpa,
o som explode,
o mundo se lava.

E então —
depois do excesso,
depois do rugido,
depois da catarse —

a água desacelera.
O som se afasta.
O corpo fica leve.

Surge um silêncio novo,
transparente,
com cheiro de terra molhada.

Respiro.
Ainda dói,
mas dói limpo.

E sem saber exatamente por quê,
no meio desse descanso luminoso,
me pego sorrindo.

Essa é a vida:
uma onda 
às vezes alta, às vezes mansa,
tecida de alegrias e tristezas
se alternam, se misturam,
e seguem —
ensinando o coração
que nem tudo é como quero
mas encaro
e continuo aberto.


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