Sem expectativas
Agora, diante da experiência,
não fabrico expectativas.
Caminho descalço pelo que acontece.
Vivo o que rola.
Sem ensaio.
Sem promessa.
Amo mesmo quando não gosto.
E isso é novo.
Antes eu confundia amor com conforto.
Hoje sei:
amor é permanência lúcida
diante do que me toca.
Contemplo.
Não para concordar,
mas para deixar de lutar.
Há coisas que só se dissolvem
quando são vistas sem defesa.
Pouco a pouco,
vou liberando o que ainda sinto do passado.
Aquelas marcas antigas
que distorcem o que capto,
que pintam o presente
com cores que não lhe pertencem.
Desmonto as advertências do ego,
suas placas de perigo,
seus julgamentos apressados.
Eles falam alto,
mas não são sábios.
Esvazio.
E contemplo.
E quando consigo,
aquilo que me molestava
se esfuma,
como névoa ao sol.
Redescubro —
com um espanto manso —
o que me acontece é mágico.
Não por ser perfeito,
mas porque responde
àquilo que irradio.
O mundo não me atinge:
me espelha.
A arte da presença
transforma o fora
em ponte
que acessa o dentro.
E quando percebo isso,
tudo se reorganiza.
Sendo tudo,
o amor flui.
Integra diferenças,
desarmonias,
inconveniências.
Nada precisa ser excluído
para que haja sentido.
Eu permaneço.
E isso basta.
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