🎼 AQUIETAR E RECOMEÇAR

🎼 AQUIETAR E RECOMEÇAR

Poema em Quatro Movimentos

I — Grave (Molto oscuro)

Estou grave.
Um acorde denso se instala no peito,
pesado como um céu sem fendas.
A vida perde o compasso
e eu, cansada, tropeço
nas perguntas que não param de nascer.

Tudo dói.
Dói não dar conta.
Dói tentar e falhar.
Dói o mundo não caber
no contorno do meu desejo.

As horas se esticam
como corredores sem porta.
O ar encurta.
Os pensamentos colidem
— febris, truncados, sem nexo.

O chão cede.
E eu desço.
Desço mais.
Até onde a esperança
é um luxo antigo,
quase indecente.


II — Presto agitato (Quase ruptura)

Ali, no fundo,
onde até o choro se exaure,
eu me calo.

Silêncio.

No silêncio,
a pergunta nua,
sem metáfora,
sem defesa:

Será que morri?

(pausa longa)


III — Adagio sostenuto (Entrega)

Uma luz no fim do túnel.
Pequena.
Frágil.
Mas viva.

Não vou deixá-la apagar.

A explosão cessa.
A tortura se dissolve.
O que vem agora é repouso.

Uma calma que não explica,
mas envolve.
Como se uma mão invisível
tocasse minha testa ardente
e dissesse:
fica.

E eu rio.
Rio de mim.
Como sou louca.

“Meu Deus… como sou dramática.”
Malcriada.
Histérica.
Desiludida.

Ó minha criança…


IV — Andante luminoso (Recomeço)

Olha o preço que pago
por não te escutar.
Por não te acolher.
Por não te dizer, com doçura e verdade,
que crescemos.

Que o mundo não gira
a nosso favor.
Que protestar contra a realidade
não a transforma —
apenas nos cansa.

Não falta razão.
Falta humildade.
Muita humildade.

Inclino-me para dentro e sussurro:
Aquieta.

Respira.
Sente o chão.
Olha o que há.

A música do mundo retorna,
sem glória,
mas verdadeira.

E isso basta.

Calar.
Respirar.
Acalmar.
Silenciar.



🎭 VERSÃO CÊNICA — MONÓLOGO PARA VOZ, CORPO E SILÊNCIO

(Luz baixa. Corpo inclinado. Voz grave, contida.)

Estou grave.
Muito grave.
Algo pesa aqui… (toca o peito)
e eu não dou conta.

(Anda alguns passos, inquieta.)
Tudo dói.
Não dar conta dói.
Tentar dói.
Falhar dói.

(Pausa. Respiração curta.)
O mundo…
o mundo não cabe em mim.

(Desce o corpo, quase senta no chão.)
As horas não passam.
Elas se esticam.
Os pensamentos brigam entre si.
Nada faz sentido.

(Silêncio longo.)

Será que…
(sussurra)
será que eu morri?

(Total silêncio. Corpo imóvel.)

(Aos poucos, respiração desacelera.)
Tem uma luz.
Pequena.
Mas tem.

(Levanta um pouco o rosto.)
Acabou…
acabou a explosão.
Que bom.

(Sorriso mínimo.)
Meu Deus…
como sou dramática.

(Mais próxima, como falando consigo no espelho.)
Ó minha criança…
vem cá.

(Mão no peito.)
Crescemos, sabia?
O mundo não é nosso servo.
E tudo bem.

(Respiração funda.)
Chega de pedir.
Chega de reclamar.
Chega de julgar.

(Firme e doce.)
Agora…
aquieta.

(Longa respiração.)

Desculpa, voz perturbada.
Não vou mais te alimentar.

(Olha ao redor, escuta.)
Escuta…
os passarinhos.
A vida fora ainda aqui.

(Luz suaviza.)
Calar.
Respirar.
Acalmar.

Por favor, acalmar

(Apaga em silêncio.)

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