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Mostrando postagens de janeiro, 2026

🎼 AQUIETAR E RECOMEÇAR

🎼 AQUIETAR E RECOMEÇAR Poema em Quatro Movimentos I — Grave (Molto oscuro) Estou grave. Um acorde denso se instala no peito, pesado como um céu sem fendas. A vida perde o compasso e eu, cansada, tropeço nas perguntas que não param de nascer. Tudo dói. Dói não dar conta. Dói tentar e falhar. Dói o mundo não caber no contorno do meu desejo. As horas se esticam como corredores sem porta. O ar encurta. Os pensamentos colidem — febris, truncados, sem nexo. O chão cede. E eu desço. Desço mais. Até onde a esperança é um luxo antigo, quase indecente. II — Presto agitato (Quase ruptura) Ali, no fundo, onde até o choro se exaure, eu me calo. Silêncio. No silêncio, a pergunta nua, sem metáfora, sem defesa: Será que morri? (pausa longa) III — Adagio sostenuto (Entrega) Uma luz no fim do túnel. Pequena. Frágil. Mas viva. Não vou deixá-la apagar. A explosão cessa. A tortura se dissolve. O que vem agora é repouso. Uma calma que não explica, mas envolve. Como se uma mão ...

Vênus - Plutão

Rapto de Proserpina Vênus - Plutão Hector Othon  A partir de agora, conjunção de Vênus com Plutão . O céu ativa o mito — e o mito nos atravessa. É a síndrome do rapto de Proserpina por Plutão : o desejo que seduz, a beleza que puxa para baixo, o amor que promete intensidade e cobra entrega total. Se bobear, a gente cai no abismo infernal achando que é paixão, confunde profundidade com perda, fusão com desaparecimento. Plutão não quer metade. Quer tudo. Quer a raiz, o osso, a sombra. Quer posse, controle, exclusividade, quer que Vênus desça ao subsolo e aprenda a amar sem luz. Mas há escolha. Sempre há. Eu prefiro Dionísio . Não o rapto — a adoração . Não o sequestro da alma — o êxtase consciente. Não o amor que aprisiona — o amor que liberta. Dionísio não puxa para baixo, ele dissolve para expandir. Não captura: convida. Não controla: embriaga de presença. Com ele, o corpo é templo, o prazer é rito, a entrega é escolha viva, não condenação. Nesse t...

Sem expectativas

✨𝙎𝙚𝙢 𝙚𝙭𝙥𝙚𝙘𝙩𝙖𝙩𝙞𝙫𝙖𝙨 𝙃𝙚𝙘𝙩𝙤𝙧 𝙊𝙩𝙝𝙤𝙣  Já aprendi. Agora, diante da experiência, não fabrico expectativas. Caminho descalço pelo que acontece. Vivo o que rola. Sem ensaio. Sem promessa. Amo mesmo quando não gosto. E isso é novo. Antes eu confundia amor com conforto. Hoje sei: amor é permanência lúcida diante do que me toca. Contemplo. Não para concordar, mas para deixar de lutar. Há coisas que só se dissolvem quando são vistas sem defesa. Pouco a pouco, vou liberando o que ainda sinto do passado. Aquelas marcas antigas que distorcem o que capto, que pintam o presente com cores que não lhe pertencem. Desmonto as advertências do ego, suas placas de perigo, seus julgamentos apressados. Eles falam alto, mas não são sábios. Esvazio. E contemplo. E quando consigo, aquilo que me molestava se esfuma, como névoa ao sol. Redescubro — com um espanto manso — o que me acontece é mágico. Não por ser perfeito, mas porque responde àquilo qu...

Desabafo

Desabafo Eu sento dentro do silêncio e a tristeza chega sem pedir licença. Não é drama — é um tom grave, inevitável, como um piano tocado com cuidado no início da manhã. As notas caem lentas, uma a uma, cinza-azul, ecoando no peito. Cada som tem cor, cada pausa tem peso. O ar é frio e cheira a coisa antiga que ainda dói. Vejo sombras longas se movendo nas paredes internas. Não são inimigas. São lembranças respirando. O piano insiste, agora mais fundo, mais próximo do osso. Meu corpo vibra. O som vira água. Primeiro riacho. Depois corrente. Depois tudo corre. O azul escurece, vira verde úmido, vira espuma branca. Já não controlo o ritmo. A música me atravessa e eu deixo. Sou cachoeira. Sou queda. Sou força sem freio. O choro não pede desculpa, o som explode, o mundo se lava. E então — depois do excesso, depois do rugido, depois da catarse — a água desacelera. O som se afasta. O corpo fica leve. Surge um silêncio novo, transparente, com cheiro de te...